Águas de agosto

ALEXANDRE BUBLITZ

Acordo no meio da noite com som alto de trovão. Penso nos campos de desabrigados. Será que suas barracas de lona e casas de telhas de zinco resistirão a essa tempestade?

Pela manhã, de dentro do carro de Médicos Sem Fronteiras (MSF), vejo que Maiduguri, a capital do estado de Borno, encontra-se debaixo d’água. A temporada de chuvas muda a paisagem da cidade quase desértica para tons mais verdes. Em direção ao hospital, vemos as ruas transformarem-se em verdadeiros lagos.

O mês de agosto marca o pico da desnutrição infantil na região. Pouco antes da colheita, o alimento fica ainda mais escasso e a fome cresce. Não bastasse isso, a chuva traz consigo a proliferação dos mosquitos da malária e as águas paradas carregam a cólera. Nos campos de deslocados internos, o estrago é ainda maior. São mais de 10 anos de conflito entre o Estado e grupos armados. Com medo da violência, muitas pessoas abandonam suas casas e vilarejos para fugir para Maiduguri.

Ao chegar ao hospital, vejo que as tendas já estão cheias de novos pacientes. Aqui, atendemos crianças com desnutrição grave. São um total de 100 leitos, com mais de 400 pacientes internados por mês e outros mil atendidos nos ambulatórios.

O dia recém-começava e o trabalho já era intenso; uma criança que viera à noite encontrava-se em estado muito grave. Era um menino de pouco mais de 9 meses, que pesava menos de 3 quilos. A cada respiração profunda, eu observava a proeminência de seus ossos no peito. Os olhos fundos estavam parados. Nessa época do ano, vemos muitos casos assim.

Durante toda a manhã, permaneci com esse paciente e sua mãe. Horas difíceis, em que vemos, aos poucos, uma criança morrer. Mesmo com os antibióticos, o oxigênio e todo suporte que podíamos dar, o menino faleceu. Sua mãe permaneceu todo o tempo a seu lado. Em seu rosto, eu percebia um semblante sofrido e calejado. Esse não era o primeiro filho que ela via morrer. A história repetia-se entre as mães que conheci. Chegavam a ter mais de 10 filhos, mas quase metade deles vinha a falecer.

Felizmente, não apenas de casos tristes é feito um hospital. Perto do fim da tarde, ouvi o doutor Bashir rir enquanto conversava com a mãe do pequeno Usman. A criança havia passado quase um mês conosco e logo estaria de alta. Suas lesões de pele, típicas de kwashiorkor, um tipo de desnutrição, estavam cicatrizando. A jovem mãe estava grávida novamente e contou a Bashir que gostaria de dar a seu filho o meu nome, como forma de agradecimento.

Uma criança com o meu nome nascerá na Nigéria. Não sei qual será seu futuro, mas posso ver a vida recriar-se nos olhos sorridentes daquela mãe. A temporada de chuvas passará e com ela uma nova colheita aproxima-se. As águas que carregam consigo a morte e as doenças são também as que geram a vida e trazem a esperança de dias melhores para as pessoas que vivem em Maiduguri.

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