Viver sem um porto seguro

Seis anos de independência, com raros períodos de tranquilidade. A vida no mais novo país do mundo é marcada por confrontos violentos envolvendo disputas de poder e território que resultam na necessidade de fuga em busca de segurança. Esses constantes deslocamentos potencializam a vulnerabilidade da população: sem a possibilidade de trabalhar em suas plantações e de cuidar de seus animais para consumo próprio, as pessoas estão dependentes de ajuda para sobreviver. Não à toa, a região que compreende o Sudão do Sul figura entre os cinco países onde Médicos Sem Fronteiras (MSF) mais investe recursos no desenvolvimento e na manutenção de projetos desde 2006. E as perspectivas, infelizmente, não são animadoras.

Cortado pelo rio Nilo Branco, o Sudão do Sul está cercado pelas montanhas de Nuba, pelo deserto etíope e pela densa vegetação da África Central. A economia depende majoritariamente do petróleo, estando as reservas concentradas na região do Alto Nilo, que está entre as mais disputadas do país. Os anos de conflito, no entanto, garantiram ao Sudão do Sul um dos mais baixos índices de desenvolvimento mundial — a expectativa de vida está na casa dos 42 anos, segundo relatório do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas (OCHA, na sigla em inglês), de 2013. MSF atua na região que hoje constitui o país desde 1983 e, nesses mais de 30 anos, testemunha a escalada das necessidades humanitárias.

Após a independência, em 2011, o Sudão do Sul se viu novamente mergulhado no que seria considerada mais uma guerra civil. No final de 2013, após uma ruptura política entre o presidente Salva Kiir, representante da etnia dinka, e seu então vice-presidente, Riek Machar, da etnia nuer, o Exército Popular pela Libertação do Sudão do Sul (SPLA, na sigla em inglês), ligado ao governo, enfrentaria grupos armados opositores por todo o país até meados de 2015, quando um novo acordo de paz foi estabelecido.

Nesse ínterim, a população civil ficou à mercê da brutalidade comum a ambos os lados combatentes. Vilarejos inteiros foram incendiados e incontáveis violações de direitos humanos, cometidas. “Eles não encontraram minha família quando me acertaram um tiro porque eles haviam entrado no rio, mantendo apenas a boca para fora, para respirar. No meio do mato, eles te encontram, mas, se você está embaixo d’água, não te veem”, comenta um ex-paciente de MSF sobre os ataques à cidade de Pibor, em 2012.

Segundo estimativas da OCHA de março deste ano, 1,7 milhão de refugiados sul-sudaneses estão em países vizinhos, principalmente Uganda e Etiópia, e 1,9 milhão de pessoas estão deslocadas pelo país. Uma delas é o professor de história Ronyo Adwok, que morava e lecionava em Malakal. A cidade, que chegou a ser a segunda maior do país por causa da produção petrolífera, é, hoje, um dos pontos mais castigados pela guerra. Em fevereiro de 2014, Ronyo descansava quando sua casa foi atacada. Com a perna ferida, ele correu ao hospital da cidade. “Todos os dias, entravam entre 10 e 15 homens armados no hospital. Muitos foram assassinados na sala onde eu estava, e muitas mulheres foram levadas”, recorda-se. Na ocasião, equipes de MSF contabilizaram 11 cadáveres apenas na área que compreendia o hospital. Episódios como esse, normalmente seguidos de saques às instalações de saúde, levaram MSF a interromper atividades em algumas regiões do país. Mais de uma vez, milhares de pessoas ficaram sem acesso a cuidados de saúde.

Proteção aos civis
Diante dos confrontos e da massiva movimentação de pessoas em busca de segurança, surgiu um novo tipo de assentamento para deslocados internos: os complexos de proteção a civis (Protection of Civilians, ou PoC, na sigla em inglês), nas bases da Missão da ONU para o Sudão do Sul (UNMISS, na sigla em inglês). Ainda que encarregada dos planos de contingência para um potencial influxo de civis, mesmo a UNMISS foi surpreendida com o que o futuro próximo traria a seus portões: em abril de 2017, somavam-se cerca de 215 mil deslocados internos nos seis PoCs distribuídos pelo país. As condições das estruturas, pensadas para absorver uma demanda infinitamente menor do que a atual em termos de população e tempo de permanência, estão muito aquém do mínimo desejável. No PoC de Malakal, por exemplo, onde vivem cerca de 30 mil deslocados, uma latrina é compartilhada por 50 pessoas, e a população vive com menos de 15 litros de água por dia. Ali também se reproduzem os confrontos étnicos que se dão para além dos portões: em fevereiro de 2016, entre 25 e 65 pessoas foram mortas e mais de 100 ficaram feridas em confrontos que culminaram na saída da população dinka da instalação. MSF está presente nas estruturas de Malakal e Bentiu, com hospitais que oferecem cuidados de saúde primária e secundária.

Mais uma vez, a violência
Em julho de 2016, uma nova onda de violência fez reacender o conflito no Sudão do Sul. A população teve novamente de fugir e MSF chegou a evacuar suas equipes internacionais de algumas localidades, como Leer e Thonyor. Para continuar a oferecer cuidados à população em movimento, foram estruturadas clínicas móveis básicas operadas por profissionais nacionais. Os internacionais visitam as instalações improvisadas para garantir o treinamento e a entrega de suprimentos essenciais. “Essa história deveria ser sobre o pessoal nacional de MSF em campo. Eles são os que mais enfrentam o perigo exercendo sua profissão, sendo alvo de gangues armadas que acreditam que eles têm dinheiro por trabalharem para uma organização internacional. Eles são quem fica para trás quando nós saímos”, afirma a dra. Philippa Pet, de MSF.

 

“Nós acompanhamos a população aonde quer que ela vá. Uma vez, passei oito horas no pântano, escondido com os demais de homens armados. Cinco pessoas foram alvejadas e morreram ali, ao meu lado”, conta James, promotor de saúde de MSF.

Necessidades galopantes
Na medida em que, segundo a OCHA, estima-se que 5,7 milhões de pessoas precisarão de assistência humanitária em 2017 e apenas 1,9 milhão delas têm acesso a alguma ajuda, é evidente que os esforços precisam ainda ser multiplicados. MSF tem ampla atuação no país, com 20 projetos que mobilizam mais de 3 mil profissionais nacionais e cerca de 300 internacionais. “A presença de MSF no Sudão do Sul é essencial, e atuamos em diversas frentes no país, afetado por epidemias cíclicas de malária e cólera, além de um quadro de desnutrição que se agrava continuamente, como resultado dos deslocamentos da população”, conta Marie Cleret, coordenadora-geral de MSF para o Sudão do Sul. Segundo ela, a organização prevê ampliar suas atividades no país para atender às demandas cada vez maiores da população por cuidados básicos: “Estamos nessa busca, à medida que o acesso às pessoas, a situação de segurança e nossa capacidade assim permitirem. Estamos investindo em clínicas móveis, inclusive a fim de oferecer cuidados para desnutrição.” Em janeiro, equipes de MSF na província de Mayendit observaram que 25% das crianças com menos de 5 anos de idade tinham desnutrição aguda e mais de 8% tinham desnutrição aguda grave. “A violência não dá trégua, e os deslocamentos geram a impossibilidade de acesso ao básico para a sobrevivência, agravando a situação de vulnerabilidade. É um círculo vicioso”, conclui.

Para Jaume Rado, que trabalhou com MSF por duas vezes no Sudão do Sul, ainda que o cenário não sugira otimismo, é preciso acreditar na capacidade de mudança: “A esperança e o instinto de sobrevivência são ferramentas poderosas. Embora eu tenha convivido com nossos profissionais locais e percebido uma sociedade adulta muito cansada e frustrada, que se concentra na sobrevivência diária, também vi crianças vivendo em meio às terríveis condições dos PoCs brincando e sorrindo. É por essas pessoas que sofreram tanto, e continuam sofrendo, que não podemos falhar como humanidade.”

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