Saiba quais foram as principais crises humanitárias e emergências que respondemos em 2019

Oliver Behn, dr. Marc Biot, dra. Isabelle Defourny, Kenneth Lavelle, Bertrand Perrochet e Teresa Sancristoval, diretores de Operações

Em 2019, aproximadamente 65 mil profissionais de Médicos Sem Fronteiras (MSF) prestaram assistência médica e humanitária a pessoas em mais de 70 países.

Durante o ano, as condições de vida se deterioraram significativamente em países da região do Sahel — especialmente Mali, Níger e Burkina Faso. Grupos armados e violência intercomunitária obrigaram as pessoas a abandonar suas casas. Atendemos às imensas necessidades médicas, incluindo níveis alarmantes de desnutrição e malária entre crianças. No Iêmen, a guerra entrou no
quinto ano. Embora os ataques aéreos tenham diminuído, os combates continuaram em outras frentes de batalha. Enfrentamos grandes dificuldades para oferecer cuidados de saúde à população iemenita, em um contexto caracterizado por insegurança e restrições burocráticas. Na República Centro-Africana, houve diversos ataques contra civis e infraestruturas civis. O conflito no país limitou severamente o acesso à saúde. Quando nossas equipes chegaram à cidade de Mingala para aplicar vacinas, as pessoas contaram que não viam um médico ou um agente humanitário há mais de dois anos. Na Síria, milhões de deslocados ainda vivem em acampamentos precários e inseguros. Em outubro, a operação militar turca no nordeste do país nos obrigou a reduzir a presença ou retirar equipes de vários locais. Grande parte de nosso trabalho se limitou a apoiar redes médicas e hospitais locais sírios.

Surtos de sarampo afetaram vários países em 2019, resultando em milhares de mortes. A República Democrática do Congo (RDC) foi particularmente atingida, com 310 mil casos reportados e cerca de 6 mil mortes, três quartos delas de crianças com menos de 5 anos de idade. Atuamos em 16 províncias, vacinamos mais de meio milhão de crianças e tratamos mais de 30 mil pacientes. Também respondemos a surtos de sarampo em Camarões, Nigéria, Chade e Líbano. Até o fim do ano, o surto de Ebola no nordeste da RDC havia tirado mais de 2.200 vidas. Apesar das lições aprendidas com a epidemia na África Ocidental e da disponibilidade de duas novas vacinas e tratamentos em estudo, dois terços das pessoas infectadas morreram. MSF se frustrou com os lentos, pouco transparentes e restritos esforços de vacinação, que atrasaram as campanhas por semanas, enquanto pedimos publicamente à Organização Mundial da Saúde mais transparência no fornecimento das vacinas.

Em março, chuvas intensas no Malaui causaram fortes inundações. No percurso para o mar, transformaram-se no ciclone Idai, que atingiu primeiro Moçambique e depois o Zimbábue. Cerca de 80% da cidade moçambicana da Beira foram destruídos pela tempestade. Lançamos uma resposta em larga escala para prover assistência médica, bem como água e saneamento, reconstruir instalações de saúde e ajudar as autoridades locais a conter um surto de cólera. Em outubro, partes do Sudão do Sul, do Sudão e da Somália foram gravemente afetadas por inundações. Centenas de milhares de sul-sudaneses foram deslocados.

Migrantes, refugiados e solicitantes de asilo continuaram sendo abandonados, negligenciados ou deportados por autoridades de todo o mundo. Da América Central ao Chifre da África, nossas equipes veem o sofrimento das pessoas em movimento. Em agosto, retomamos nossas operações de busca e salvamento no Mediterrâneo, enquanto milhares de migrantes continuavam presos na
violenta Líbia. Nas ilhas gregas, outros milhares de pessoas definham em condições miseráveis. Nossas equipes oferecem assistência médica nos dois países.

Duas décadas depois de MSF ter recebido o prêmio Nobel da Paz, o trabalho da Campanha de Acesso a Medicamentos (Came) em defesa de tratamentos mais baratos e acessíveis permitiu que ampliássemos o tratamento para várias doenças, incluindo HIV/Aids, hepatite C e tuberculose. A Came foi criada com o valor recebido com a premiação. Mesmo passado tanto tempo, as palavras de James Orbinski na cerimônia de entrega do Nobel ainda ressoam: “Como associação voluntária independente, estamos comprometidos a levar ajuda médica direta às pessoas necessitadas. Mas não agimos no vazio nem falamos ao vento. Temos uma clara intenção de ajudar, provocar mudanças ou revelar injustiças”.

Somos muito gratos a nossos doadores e a todos os profissionais que trabalham em nossos projetos, dedicando tempo e habilidades para cuidar de milhares de pessoas. Nossos pensamentos permanecem com Romy, Richard e Philippe, três colegas sequestrados na RDC em julho de
2013 que ainda estão desaparecidos.

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