O sonho americano desfeito

LALI CAMBRA e ELIAS PRIMOFF

No Triângulo Norte da América Central — e ao longo da rota migratória rumo ao norte através do México, com destino aos Estados Unidos (EUA) —, duas poderosas forças opostas encurralaram milhares de pessoas em um ciclo aparentemente interminável de violência e deslocamento. A profunda desigualdade social, a instabilidade política e conflitos na Guatemala, em Honduras e em El Salvador levam cerca de 500 mil pessoas a fugir todos os anos para o norte em busca de segurança, enquanto nos EUA o governo está intensificando as deportações e desmantelando proteções legais para refugiados e solicitantes de asilo, em um esforço para enviá-los de volta.

Embora o governo norte-americano declare repetidamente que o México é um lugar seguro para buscar asilo, evidências — inclusive depoimentos coletados por equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) — mostram que isso não é verdade. Migrantes, refugiados e solicitantes de asilo estão expostos a sequestros, extorsão e abusos terríveis. Em 2018, ampliamos nossa resposta às consequências físicas e psicológicas desse desastre que se desdobra, expandindo nossas atividades de suporte psicossocial em instalações de saúde, bem como abrigos de migrantes ao longo das rotas para o norte.

Pessoas tratadas por equipes de MSF em toda a região compartilham histórias de violência e criminalidade que as forçaram a deixar suas casas. Guadalupe, mãe de cinco filhos, fugiu de sua casa em Honduras quando as maras (gangues) começaram a “se interessar” por seu filho de 14 anos de idade. “A gangue queria que ele se tornasse um vigia”, disse ela. Mais tarde, Guadalupe foi agredida e abusada sexualmente na fronteira entre a Guatemala e o México por dois homens. Ela veio para a clínica de MSF em Tenosique — uma cidade mexicana no estado de Tabasco —, onde cuidamos de suas feridas físicas e psicológicas.

Equipes de MSF mantêm vários projetos no Triângulo Norte para ajudar pessoas vulneráveis e que precisaram deslocar-se. Em Honduras, oferecemos assistência médica e psicossocial abrangente de emergência a vítimas de violência, incluindo violência sexual. Em El Salvador, enviamos clínicas móveis para oferecer serviços de saúde primária, saúde mental e saúde sexual e reprodutiva em regiões onde a insegurança impede que as pessoas tenham acesso à assistência médica.

Aqueles que tomam a dolorosa decisão de deixar suas casas encontram novos perigos na estrada. “Vemos o que se espera ver em pessoas em deslocamento: feridas, desidratação, febre”, diz Candy Hernández, médica de MSF que trabalha no Abrigo 72 em Tenosique. “Mas também vemos os terríveis efeitos da violência das gangues, que atacam as pessoas em suas jornadas e depois as roubam: ferimentos de facões, espancamentos, abuso e violência sexual.”

Sequestros são um negócio lucrativo: exaustos e desorientados, muitos migrantes, refugiados e solicitantes de asilo são pegos por grupos criminosos em estações de ônibus e aprisionados até o resgate. Foi o que aconteceu com Alberto, da Guatemala. Ele acabou em um abrigo em Nuevo Laredo, no México, onde foi examinado por nossa equipe. “Eles interrogam você, tiram seu celular e o obrigam a fornecer o número de telefone de sua família”, disse. “Ligam para sua família e pedem dinheiro. Pode ser de 2.500 a 3 mil dólares. Caso um refém não consiga o dinheiro, enfrenta tortura ou morte.”

Da fronteira sul com a Guatemala até o Rio Grande, temos equipes trabalhando em clínicas fixas e móveis e em abrigos de migrantes. Também oferecemos atendimento médico especializado para vítimas de violência extrema em um centro terapêutico na Cidade do México, capital do país. “Aqui, vemos situações semelhantes às de pessoas que passaram por guerras”, explica Diego Falcón Manzano, psicólogo de MSF que trabalha na Cidade do México. “Antes, ao longo da jornada, você era espancado ou estuprado. Agora, eles não apenas batem em você; eles o obrigam a assistir como isso é feito com outras pessoas. Ou fazem você matar alguém, ou manusear partes do corpo humano”, explica Manzano.

Se conseguirem atravessar a fronteira norte-americana, ainda enfrentam a perspectiva de deportação. Mesmo pessoas que passaram anos construindo suas vidas nos EUA podem ser repentinamente deportadas para países que há muito deixaram de chamar de lar. Os deportados encontram-se de volta ao mesmo clima de brutalidade e medo do qual tentaram escapar. Muitas vezes, descobrem que as gangues das quais fugiram estão aguardando seu retorno. Muitos não veem outra saída a não ser iniciar mais uma vez a perigosa jornada rumo ao norte, reingressando no ciclo de violência e deslocamento, impulsionados por forças além de seu controle.

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