Nº Especial 2021.

2020 o ano em foco

Oliver Behn, dr. Marc Biot, dra. Isabelle Defourny, Michiel Hofman, Christine Jamet e Teresa Sancristoval - Diretores de operações

O ano 2020 foi extremamente desafiador para as pessoas em todo o mundo. Experimentamos níveis assombrosos de doença, perda, medo e isolamento em razão da pandemia da COVID-19 e de suas consequências. Em muitos países onde Médicos Sem Fronteiras (MSF) trabalha — e em alguns onde normalmente não trabalha —, a pandemia exacerbou os problemas de saúde existentes, causados por conflitos, deslocamentos e pobreza.

Em um dos anos mais exigentes de nosso quase meio século de prestação de assistência médica, nossas equipes trabalharam em quase 90 países para responder à COVID-19 e a outras emergências, violências e surtos de doenças, que a pandemia tornou ainda mais complexos.

Ainda que a pandemia da COVID-19 estivesse sempre presente, era apenas um problema secundário para muitas pessoas nos países em que normalmente trabalhamos. As pessoas ainda morriam de malária, desnutrição e outras doenças, muitas vezes por falta de assistência médica. Lutamos para manter nossa atividade cotidiana, trabalhando para evitar o “efeito cascata” de doenças e mortes por outras doenças. Em algumas circunstâncias, tentamos preencher lacunas na área de saúde. Entretanto, em alguns lugares, a pandemia nos obrigou a suspender as atividades. Em janeiro, MSF iniciou atividades de combate à COVID-19 ajudando pessoas vulneráveis em Hong Kong. Em fevereiro e março, com o fechamento de fronteiras e aeroportos, tornou-se cada vez mais difícil transportar suprimentos e pessoal para nossos projetos. O esforço para encontrar os escassos equipamentos de proteção individual (EPIs) no início de 2020 dificultou a proteção adequada de profissionais e pacientes e realçou as flagrantes desigualdades entre os países mais ricos e os mais pobres.

Embora não tenham se concretizado nossos temores de que o vírus sobrecarregasse os sistemas de saúde com menos recursos, os países onde trabalhamos não foram totalmente poupados. Nossas equipes trataram pacientes graves com COVID-19 no Haiti, na África do Sul e no Iêmen, por exemplo.

Enquanto isso, nossos profissionais se viram trabalhando em países ricos — em alguns pela primeira vez —, para preencher falhas no conhecimento de resposta a surtos. Na Europa e nos Estados Unidos, ajudamos grupos vulneráveis e marginalizados de pessoas que as autoridades haviam esquecido, se não abandonado. Entre esses grupos — incluindo idosos, pessoas em situação de rua e migrantes —, as taxas da doença dispararam. Trabalhamos com moradores em situação de rua e migrantes em muitos países, incluindo Itália, Suíça e Brasil.

Durante 2020, adequamos continuamente nossa resposta à medida que adquiríamos mais conhecimento sobre o vírus. Nossas equipes realizaram consultas por telefone ou online. Utilizamos técnicas inovadoras, como simulações em 3D, e adaptamos instalações existentes.

Denunciamos desigualdades, com a Campanha de Acesso de MSF incentivando as empresas farmacêuticas a não lucrar com a pandemia e pedindo aos governos que desafiassem os monopólios de patentes sobre ferramentas médicas, de modo a permitir acesso mais rápido e barato a elas nos países onde trabalhamos.

A COVID-19 teve um profundo impacto em outras áreas em que atuamos. Governos usaram a pandemia como desculpa para punir ou privar migrantes de direitos e serviços, impondo restrições ao movimento de refugiados.

Quando possível, continuamos nossas atividades de busca e resgate no mar Mediterrâneo — primeiro no Ocean Viking e depois no Sea-Watch 4 —, para ajudar as pessoas que fugiam das terríveis condições da Líbia. Mas os esforços de busca e resgate das organizações não governamentais (ONGs) foram repetidamente alvo das autoridades italianas. Em todos os locais onde atuamos, fornecemos assistência médica e apoio psicológico.

Em 2020, fomos forçados a suspender ou a reduzir temporariamente algumas de nossas atividades após atos de violência contra nossas instalações e nossos profissionais. Enviamos equipes móveis para prestar atendimento de emergência a diversas comunidades traumatizadas.

Durante os conflitos, as equipes de MSF ofereceram assistência emergencial em diversos países. Além dos cuidados de saúde aos deslocados e comunidades anfitriãs, em alguns contextos também fornecemos alimentos, água e serviços de saneamento.

As equipes de MSF continuaram a responder a desastres naturais e surtos de doenças. Em 2020, ajudamos pessoas afetadas por tempestades. Nossas equipes também implementaram campanhas de prevenção e tratamento da malária e trataram pacientes com cólera e diarreia aquosa aguda. Equipes de MSF trataram pacientes e ajudaram as autoridades a controlar três surtos de Ebola. Sempre que possível, forneceram tratamento e realizaram campanhas de vacinação em massa em epidemias de sarampo. Em 2021, continuamos empenhados em fazer todo o possível para identificar e ajudar os necessitados, independentemente de raça, gênero, religião ou convicção política.

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