Entrevista

A nova diretora-executiva de Médicos Sem Fronteiras Brasil, Renata Reis, assumiu o comando da organização no país em outubro de 2022, após dez anos em MSFBrasil, destes, quase dois anos atuando como vice-diretora.

Você atuou em outras áreas de MSF nos últimos dez anos, foi vice-diretora e assumiu a diretoria-geral da organização após um período de pandemia em que MSF realizou sua maior resposta já feita no Brasil. Como a atuação nessa crise e em outros cenários enfrentados em sua carreira ajudam você, hoje, como diretora-executiva?

Eu cheguei a MSF-Brasil em 2012 para iniciar a área de Advocacy e Assuntos Humanitários. Eu já era uma profissional experiente em Advocacy em saúde, que é uma área que faz muita análise de contexto, dedica-se a ampliar nossas relações com as sociedades em que estamos, como movimentos populares, autoridades e academia, e trabalha para produzir mudanças que convirjam com os interesses de nossos pacientes. Depois, atuei como especialista em Acesso Humanitário para a América Latina e estava nessa posição quando a pandemia começou. O tamanho da crise e seus contornos complexos — que envolviam fechamento de fronteiras, dificuldade de circulação de profissionais, barreiras para acessar insumos médicos — me fizeram dedicar todo o trabalho do ano 2020 exclusivamente ao Brasil e viver um dos momentos mais desafiadores da minha carreira. Os anos COVID me ensinaram a força da cooperação, de como a resiliência e a paixão podem mover barreiras que em outras situações pareceriam intransponíveis. Levo esses ensinamentos para esse novo momento, como diretora-geral, sem dúvida.

Como MSF-Brasil pode contribuir com seu conhecimento em assistência médico-humanitária para auxiliar outras organizações e MSF no mundo?

MSF é uma organização que acumulou muita experiência e lições ao longo de seus mais de 50 anos, 30 deles atuando no Brasil. Uma das lições é a de que podemos contribuir com a partilha desse saber com outras organizações e parceiros e nos beneficiar de outras experiências exitosas pelo mundo. O Brasil tem centros de investigação de excelência em doenças que atingem nossos pacientes em diversas partes do globo, uma sociedade civil vibrante, que desenhou respostas em saúde admiradas em todo o mundo — como as políticas de combate ao HIV —, além de experiências impressionantes, como o Sistema Único de Saúde (SUS) e a resposta nacional em saúde mental. Sabemos que MSF tem um modo próprio de atuar e de manter nosso trabalho nos princípios humanitários, mas acreditamos que essa cofertilização de ideias vindas de países como o Brasil é o futuro da resposta humanitária, porque nos desafia a pensar de uma maneira plural e conectada com outras formas de fazer.

Qual o significado, para MSF-Brasil e para você, de ter uma brasileira — e a primeira mulher negra — à frente da organização no país?

Eu recebo essa oportunidade na minha vida com alegria e com responsabilidade. O lugar que ocupo fala com outras tantas mulheres negras que vieram antes de mim e que pavimentaram o chão que me trouxe até aqui, mas fala também com muitas meninas e mulheres que ainda poderão estar aqui nesse lugar, e em muitos outros, no futuro. Eu ouvi frases inesquecíveis de algumas jovens profissionais na minha primeira semana. Uma delas foi: se você pode, eu posso. Outra moça me disse ter mostrado minha foto para a mãe e a avó, e elas puderam sonhar vê-la chegar aqui também. Isso tem mais significado do que qualquer honraria que eu possa receber na vida. Na minha juventude, eu não tinha muitos exemplos de pessoas que se pareciam comigo em lugares de liderança. Faço parte de um grupo que tem a responsabilidade de dar o exemplo e ampliar as portas para que outros e outras possam liderar sem serem uma exceção.

Qual é a atuação de MSF no Brasil hoje? E como você acha que sua vivência pode contribuir para os rumos da organização no país?

Atualmente, temos projeto em Roraima, onde estamos desde 2018, dando suporte ao sistema de saúde local no contexto da chegada de um grande número de migrantes venezuelanos a uma região que historicamente já contava com desafios em saúde. Também em Roraima, temos dado apoio aos profissionais do SUS que trabalham na Casa de Apoio à Saúde Indígena (Casai), em Boa Vista, na assistência emergencial à população Yanomami. Além disso, em abril, começamos a trabalhar na região da Ilha do Marajó, no Pará, onde nosso objetivo inicial é melhorar a assistência médica a populações vulneráveis e que vivem em áreas com pouco acesso a cuidados de saúde. Outro aspecto de nossa ação tem sido o trabalho de apoio em saúde mental para pessoas afetadas por catástrofes relacionadas com a crise climática, que infelizmente têm se tornado cada vez mais comuns no Brasil.

Em relação ao futuro, vou ficar feliz se puder ampliar ainda mais a presença e a contribuição de MSF em temas relativos à saúde no nosso país. Nós temos participado ativamente de questões ligadas a acesso a medicamentos e combate a doenças negligenciadas, mas existe um enorme potencial para que intensifiquemos nosso envolvimento com outras agendas relacionadas com o Brasil e ampliemos a cooperação e o diálogo com entidades de nosso país.

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