“A guerra na Síria está sempre mudando, mas as necessidades são cada vez mais evidentes.”

María Rodríguez Rado

Coordenadora médica dos projetos de Médicos Sem Fronteiras (MSF) no norte da Síria, María Rodríguez Rado fala sobre a atuação da organização no país no contexto de sete anos de guerra.

A guerra na Síria completou sete anos no último mês de março. Esse tempo de conflito deixou marcas profundas no sistema de saúde, como a interrupção das campanhas de imunização, o que acarretou o ressurgimento de doenças antes erradicadas ou controladas no país. Nesta entrevista, conversamos com a coordenadora médica dos projetos de MSF no norte da Síria, María Rado, antiga diretora da Unidade Médica Brasileira (Bramu). Ela nos fala sobre a atual situação do país, sobrecarregado por uma guerra que parece estar longe de acabar.

Por que grande parte do trabalho de MSF na Síria se encontra no norte do país?

Foto: Eduardo Zappia

Em primeiro lugar, nenhuma equipe de MSF teve autorização para entrar nas áreas controladas pelo governo sírio. Isso nos obrigou a buscar espaços alternativos, em que éramos aceitos pela comunidade. O hospital Al Salama, próximo à cidade de Azaz, já existe há seis anos e foi uma resposta às primeiras necessidades trazidas pela guerra, pois foi montado justamente onde havia uma grande passagem de pessoas que seguiam para o norte, tentando fugir do conflito. Lá, oferecemos serviços de saúde primária e secundária, realizando uma média de 10 mil consultas por mês. O hospital é rodeado por campos de deslocados internos, para onde muitos fugiram já em 2011 – e que cresceram em especial em 2015, quando as fronteiras foram fechadas. Eles continuam abrigando pessoas, como as que escaparam dos últimos ataques em Ghouta. Ainda no norte da Síria, apoiamos diferentes hospitais e postos de saúde em Idlib, zona que também recebe, atualmente, deslocados de Ghouta.

Quem são as pessoas que trabalham com MSF na Síria?

Tivemos de criar um sistema de apoio a distância para ajudar nossas equipes lá dentro. O fato de todos serem profissionais nacionais traz uma carga a mais: nossos colegas sírios passam pelas mesmas tragédias dos pacientes que atendem. Muitos deles tiveram de fugir de suas casas e vivem em campos de deslocados internos. As pessoas muitas vezes passaram por três ou quatro deslocamentos. Nas primeiras vezes, ainda levam algo consigo, mas, com a repetição, acabam perdendo tudo. Há crianças que só conheceram a guerra, que há seis ou sete anos não recebem nenhuma vacina.

A imunização se tornou um grande problema no país?

Sim, sem dúvida. Já vimos surtos de sarampo, rubéola e pólio. Muitas crianças nunca foram imunizadas, pois nasceram no período da guerra. Atualmente, o país está devastado pela epidemia de sarampo; mais de 6 mil casos suspeitos nos últimos meses. Em 7 de abril, começamos uma campanha de vacinação em massa, em colaboração com instituições sírias, para imunizar mais de 70 mil crianças contra sarampo, rubéola e pneumococo, todas doenças evitáveis. Mas são vários os desafios para se organizar uma campanha, a começar pelos problemas de segurança. Mais de um ponto de vacinação teve que ser suspenso devido às fortes atividades do conflito no norte da Síria, o que acaba repercutindo no acesso das crianças às vacinas. Muitas vezes, as pessoas também não comparecem aos locais de vacinação porque têm medo de qualquer lugar que reúna muita gente e possa vir a se tornar alvo de bombardeio.

Ataques a hospitais têm sido um prolema na Síria?

Em 2016, 32 instalações médicas apoiadas por MSF na Síria foram afetadas direta ou indiretamente por bombardeios aéreos 71 vezes. Em 2015, documentamos 94 ataques a hospitais e clínicas que recebiam nosso apoio. Já em janeiro deste ano, dois bombardeios aéreos atingiram um hospital que apoiávamos com suprimentos em Idlib. Na recente ofensiva contra a cidade de Ghouta Oriental, a destruição de instalações médicas foi uma constante. Quando há um bombardeio, o centro de saúde que apoiamos simplesmente desaparece. Instalações médicas e espaços civis precisam ser respeitados.

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