As formas de cuidar do que é invisível

Deborah Duarte

A saúde mental sempre foi muito importante para Médicos Sem Fronteiras (MSF) e ganha cada vez mais nossa atenção. Nossa preocupação é voltada não só para os pacientes, como também para nossos profissionais. Afinal, precisamos cuidar também de quem cuida.

Minha experiência em MSF está intimamente ligada ao tema. Como profissional internacional, ofereci cuidados de saúde mental à população de locais afetados por conflitos e catástrofes. Hoje, trabalho no escritório de MSF-Brasil oferecendo suporte psicossocial aos profissionais que vão para os projetos para prestar ajuda aos que precisam e que não deixam de ter também vivências fortes e marcantes.

Temos um encontro antes da partida do profissional para o projeto e outro no seu retorno. No trabalho, os sintomas mais frequentes são ansiedade, medo e sintomas psicossomáticos, como insônia, exaustão, falta ou excesso de apetite. Durante o projeto, eles também podem entrar em contato com uma equipe psicossocial 24h pela internet. É bastante comum que os profissionais entrem em contato com as equipes psicossociais de seus próprios países, buscando alguém que possa conversar com eles na sua língua materna. As equipes também ficam disponíveis para, caso haja algum incidente crítico no projeto, se deslocarem até lá para prestar suporte presencial aos envolvidos. Assim, seja remotamente ou frente a frente, tentamos juntos explorar a origem da questão que os incomoda e trabalhar os mecanismos que cada um tem para enfrentá-las.

Entretanto, como profissional de saúde mental nos projetos ou como psicóloga no escritório, além de garantir o suporte psicossocial, outro tão ou mais desafiador obstáculo é ultrapassar as barreiras do medo recorrente de acessar o desconhecido e o intangível, o que não se vê e só se sente.

Em cada um dos projetos em que estive desenvolvemos maneiras diferentes de lidar com o assunto, que respeitavam a realidade de cada contexto. Na Faixa de Gaza (2010), eram realizados atendimentos com a população que sofria com o conflito. Os atendimentos eram individuais e semanais; utilizávamos a técnica de psicoterapia breve, na qual se têm foco e número de sessões preestabelecidos. Já no campo de refugiados de Dadaab (2011), no Quênia, precisamos buscar uma abordagem diferente. A população nunca tinha ouvido falar de psicólogos. O contexto não favorecia a prevenção e os cuidados com a saúde mental: era um campo de refugiados lotado, aonde chegavam famílias inteiras e outras “pela metade”. Lá, o trabalho era ir ao campo para conscientizar essa população sobre a importância dos cuidados com sua saúde mental. Tentávamos entender a dinâmica e a história de cada família para então orientar sobre os cuidados e chamá-los para irem até as clínicas.

A Faixa de Gaza e Dadaab são exemplos entre muitos outros que demonstram a existência de diversas formas de cuidado em saúde mental. Entretanto, a prevenção com as visitas domiciliares e os grupos psicoeducacionais, o atendimento individual, em grupo, tudo tem um único objetivo: cuidar daquilo que não se vê. Poder se restabelecer após um trauma, após uma crise ou uma situação de extrema crise. Poder sentir-se humano após tantas experiências fortes e marcantes. Conheço esse sentimento tanto como psicóloga quanto como alguém que vivenciou histórias impactantes em campo.

Por isso é tão importante o cuidado com os profissionais que voltam dos projetos. Eles precisam se restabelecer, voltar para suas vidas com alguma confiança no ser humano, pois, como disse, as experiências deixam marcas. Cuidar dessas marcas é fundamental para que não se tornem feridas. Ter sido também profissional internacional ajuda a entender um pouco mais os contextos que eles trazem. Cuidamos juntos para que esse retorno seja cauteloso, para que seja olhado com o devido respeito, intensidade e valor.

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